Só mais cinco minutos
Hoje voltei com você para casa, mas não da forma como eu queria.
Não tenho mais você para sair, conversar, rir ou chorar. Não tenho mais sua companhia nas pequenas coisas do dia, nem sua presença para transformar um momento comum em uma lembrança especial. Sei que, mesmo longe, você continuará ao meu lado de alguma maneira. Mas eu queria que fosse diferente. Queria você aqui, em carne e osso.
Agora, tudo o que tenho são lembranças.
Terei que aprender a viver sem você. Terei que me acostumar a acordar sem receber sua mensagem de bom dia, sem esperar uma visita surpresa, sem ouvir sua voz me chamando. Terei que reaprender a viver uma vida em que você já não está fisicamente presente.
E isso ainda parece impossível.
Às vezes, imagino que vou entrar pela sala e encontrar você novamente sentado no sofá, esperando por mim. Por alguns segundos, quase consigo acreditar que tudo continua como antes. Então olho ao redor e percebo que não.
Olho para as fotografias e encontro nossos momentos congelados no tempo. Sorrimos nelas como se nada pudesse nos separar. Depois, meus olhos encontram suas roupas. Elas ainda estão ali, ocupando espaço, guardando o seu cheiro, a sua história. Mas você não está mais dentro delas.
E talvez seja isso que mais doa: perceber que algumas coisas permanecem exatamente onde estavam, enquanto a pessoa que dava sentido a elas se foi.
O silêncio também mudou.
Antes, a casa tinha sons. Hoje, parece que ela aprendeu a ficar em silêncio. Um silêncio absoluto, daqueles que fazem a saudade falar mais alto.
Às vezes, fico pensando em tudo o que poderia ter feito diferente.
Poderia ter passado mais tempo ao seu lado. Poderia ter prestado mais atenção quando você estava comigo. Poderia ter deixado algumas coisas de lado para aproveitar mais a sua presença. Poderia ter dito mais vezes “eu te amo”. Poderia ter criado mais memórias, tirado mais fotografias, dado mais abraços.
Poderia.
Mas não existe uma maneira de voltar no tempo.
E talvez essa seja uma das partes mais difíceis da saudade: perceber que agora enxergamos o valor de alguns momentos justamente porque eles não podem mais ser repetidos.
Eu sei que não posso trazer você de volta. Sei que nenhum pedido, nenhuma lágrima e nenhuma saudade serão capazes de mudar o que aconteceu.
Mas também sei que você não desapareceu completamente.
Você permanece nas minhas lembranças, nas histórias que ainda conto, nas fotografias que guardo e em tudo aquilo que aprendi ao seu lado. Permanece nas pequenas coisas que me fazem lembrar de você quando menos espero.
Você continua sendo uma presença viva dentro de mim.
Ainda assim, se eu pudesse pedir apenas uma coisa, pediria cinco minutos.
Somente cinco.
Cinco minutos para olhar nos seus olhos, dizer que te amo e sentir mais uma vez o seu abraço. Cinco minutos para guardar sua voz na memória e dizer tudo aquilo que talvez eu tenha deixado para depois.
Lembro de quando eu era criança.
Sempre que eu caía, você vinha correndo para me consolar. Bastava olhar para você para acreditar que tudo ficaria bem. Seu olhar tinha esse poder. Mesmo sem dizer uma palavra, você conseguia me fazer sentir protegida.
Hoje, mais do que nunca, era isso que eu queria.
O seu olhar.
Aquele olhar que dizia, sem precisar de palavras, que eu não precisava ter medo. Que, de algum jeito, tudo ficaria bem.
Mas agora preciso acreditar nisso sozinha.
Hoje faz um ano que você partiu.
Um ano desde a última vez que pude ouvir sua voz, tocar suas mãos e olhar para você sabendo que estava aqui. Um ano desde que a vida continuou, mesmo quando uma parte de mim queria que o tempo parasse.
E, mesmo depois de um ano, ainda existe uma pequena esperança dentro de mim.
A esperança de que, em algum momento, eu acorde e descubra que tudo isso foi apenas um sonho. Que eu possa entrar novamente na cozinha e encontrar você preparando o café da manhã. Que você se vire, sorria para mim e diga, como tantas outras vezes:
— Bom dia.
Talvez esse momento nunca aconteça da maneira como eu imagino.
Mas, enquanto eu carregar você comigo, alguma parte da nossa história continuará existindo.
Hoje deixo estas flores na sua lápide.
Não como um adeus.
Deixo-as para que você saiba que ainda penso em você, que ainda sinto sua falta e que o amor não terminou quando você partiu.
Volto para casa sem você, mas levo comigo tudo o que vivemos.
E, enquanto houver lembranças, haverá uma parte sua caminhando ao meu lado.
Por isso, estas flores não são uma despedida.
São apenas uma promessa:
eu voltarei.

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