O dia em que comecei a esquecer o seu rosto
Abri a gaveta devagar naquela tarde chuvosa. No fundo, entre papéis antigos e fotografias amareladas pelo tempo, encontrei uma foto nossa. Fiquei alguns segundos olhando para ela, tentando reconhecer detalhes que antes eu saberia de olhos fechados. O formato do seu sorriso. O jeito que seus olhos quase desapareciam quando você ria de verdade. Mas, pela primeira vez, senti medo: eu já não conseguia lembrar do seu rosto com clareza.
Não foi um esquecimento repentino. O tempo não leva alguém embora de uma vez, ele vai apagando aos poucos. Primeiro a voz começa a falhar na memória. Depois, os gestos. Até que um dia você percebe que está tentando reconstruir mentalmente alguém que antes parecia impossível de esquecer. E isso dói, porque algumas pessoas marcaram tanto a nossa vida que acreditamos que permaneceriam intactas dentro de nós para sempre.
Durante muito tempo, lutei contra isso. Revisitei fotos como quem tenta salvar uma história do desaparecimento. Reli mensagens antigas, ouvi músicas que me lembravam você e repassei conversas inteiras dentro da cabeça antes de dormir. Era como se lembrar fosse a única forma de manter você perto. Como se esquecer qualquer detalhe significasse apagar tudo o que vivemos.
Mas o tempo, mesmo sem pedir permissão, continuou fazendo o que sabe fazer: reorganizando lembranças, suavizando dores e transformando o que antes parecia tão vivo em algo distante. E, aos poucos, comecei a entender que talvez esquecer o seu rosto não significasse esquecer o amor que existiu.
Porque algumas pessoas permanecem de outras formas. Elas ficam nos lugares emocionais que tocaram dentro da gente, nas mudanças que provocaram, nas partes nossas que nasceram depois delas. O rosto pode se tornar borrado com o passar dos anos, mas certas sensações continuam vivas, escondidas em detalhes da rotina, em músicas aleatórias ou em memórias que surgem sem aviso.
Existe também uma culpa estranha nisso tudo. Como se seguir em frente fosse uma traição. Como se deixar a memória enfraquecer significasse admitir que aquilo acabou de verdade. Mas amadurecer talvez seja entender que a memória não define a importância de alguém. O que foi real continua existindo, mesmo quando já não conseguimos lembrar cada detalhe.
Hoje, ainda existem dias em que tento recordar exatamente como você era. Às vezes consigo. Outras vezes, não. Mas talvez a vida seja assim mesmo: algumas pessoas deixam de existir na nossa frente para começar a existir apenas dentro daquilo que nos tornamos depois delas. E mesmo que eu esteja esquecendo o seu rosto… ainda existem pedaços de você espalhados em mim.



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